É comum nas
ações de formação, eu ouvir recorrentemente a frase: “falar é fácil, difícil é
fazer”. Por que será? Porque implica claramente uma mudança de hábitos, de
forma de pensar e de estar, de uma atitude diferente. Porque implica uma
mudança mental e isso traz riscos, pois vamos embarcar para águas
desconhecidas. Mas reflitamos um pouco: se conscientemente concordamos que
esses novos hábitos nos vão poder ajudar a ser mais bem-sucedidos, a ter
melhores resultados e em última instância a ser mais felizes, por que não os
mudamos? Declaradamente por medo. Medo fantasiado, medo exacerbado, medo
irreal, construído por nós e em nós. Somos assim reféns desses medos – podemos
chamar-lhe outros nomes – mas são sobretudo mecanismos de defesa que nos criam
um sistema muito bem concebido para nos impedir que sintamos medo, ansiedade,
enfim emoções negativas que geram desconforto. Como sentimos medo e assumi-lo
socialmente é deveras negativo, racionalizamos construindo um sistema de
crenças que legitimam as nossas ações – para poder ter coerência cognitiva e
evitar a dissonância cognitiva – Leon Festinger – foi quem desenvolveu esta
teoria que preconiza que as nossas crenças/expetativas são ajustadas às nossas
atitudes/comportamentos, isto é, se o meu comportamento/atitude é contrário a
uma determinada ideia/pensamento, ou das duas uma, ou mudo o meu
comportamento/atitude ou muda a minha ideia – caso contrário vou entrar em
dissonância cognitiva (o “tico” e o “teco” em contradição). O interessante nos
estudos de Festinger foi que para conseguir a tal coerência cognitiva
normalmente a “parte mais fraca” cede, ou seja, imaginando que estamos a tentar
enquanto líderes ajudar a transformar a atitude de um colaborador mostrando-lhe
que a sua atitude não está ajustada aos valores da organização, se na luta
interna travada pelo “tico e o teco” do colaborador, a adopção destas novas
ideias forem mais “fracas” que a mudança de comportamento, pois este implica
desconforto, o mais certo é o colaborador para garantir a coerência cognitiva
encontrar razões para não ter esse comportamento: porque é a sua natureza,
porque o chefe não o apoia, porque tem problemas em casa, etc. etc. Somos
humanos, é normal que reajamos assim, pois precisamos de estar coerentemente ajustados entre aquilo que fazemos e aquilo que dizemos.
Então, o que
podemos fazer enquanto agentes de mudança, enquanto líderes, para ajudar o
colaborador a mudar a sua atitude e comportamento? Nada de novo no Reino da Dinamarca,
apenas a plena tomada de consciência de que para mudar a atitude de alguém é
necessário perceber como se formam as nossas atitudes – elas são formadas
pela experiência, pela aprendizagem, pela educação, e ao longo da vida fomos
confirmando essas mesmas atitudes – para que elas possam ser alteradas é
necessário por parte do líder, antes de mais uma comunicação persuasiva, segura
e cheia de exemplos que ampliem a visão do colaborador, depois é necessário
apresentar exemplos e estudos que comprovem as razões da
nova forma de pensar, é necessário de forma empática demonstrar os ganhos
substanciais de uma nova forma de agir e, cabalmente estar ao lado do
colaborador para o apoiar no esforço de mudança, ajudando-a a ressignificar as
suas experiências e enquadrá-las na nova atitude, ou seja, explicitar
claramente a ligação entre os resultados obtidos e a nova atitude.
Em forma de
síntese, e aludindo ao título, falar não é assim tão simples, quando um líder,
um formador fala, sabe que a sua fala tem que conter um conjunto de
ingredientes que permitam primeiramente ter legitimidade para “abeira-se” da
casa (cognitiva) de cada um e depois ir deixando lá algumas sementes (exemplos,
histórias, estudos) semeadas com enorme convicção, paixão e persuasão como
forma de garantir que não são expulsas de imediato. Essas mesmas sementes devem
depois, no dia-a-dia, irem sendo regadas, demonstrando ao liderado eventuais
evidências que o levam a por em causa a suas convicções instituídas e aos
poucos a mudar a sua atitude.
Nuno Gonçalves - Partner LearnView
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