quinta-feira, 30 de maio de 2013

Quando saber não é suficiente


Constato nas centenas de ações formativas que já facilitei que o capital humano português tem um enorme potencial intelectual e comportamental. Temos tudo para sermos altamente competitivos no mercado global nacional e internacional. Gostaria no entanto, enquanto agente de mudança, de partilhar uma das fragilidades que sinto que existe no mindset do profissional português, genericamente falando.
O boom da formação em desenvolvimento das competências comportamentais (soft skills) desde os anos noventa do século XX tem sido extraordinário – inúmeras ações formativas, workshops, palestras, muito têm contribuído para a literacia emocional e comportamental dos profissionais portugueses – estamos sem dúvida na vanguarda do conhecimento, no que diz respeito à introdução das novas práticas, tendências e modas.
Podemos dizer que há potencial, mas no que diz respeito propriamente à evolução das competências comportamentais há algumas limitações nos modelos mentais dos profissionais portugueses – o que é que significa modelos mentais? A forma como pensamos e estruturamos o nosso pensamento, os nossos pressupostos que moldam posteriormente as nossas acções. Diria que alguns modelos mentais são pouco flexíveis, pouco capazes de se tornarem mais “plásticos”, isto é, terem a capacidade de receberem inputs diferentes e moldarem o seu modelo mental em função das circunstâncias e do pragmatismo que se impõe às diversas situações que se impõem à realidade de cada um.
Esta capacidade de moldar o nosso modelo mental é decisiva num processo de crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional – é a capacidade de perceber que somos nós que controlamos os nossos pressupostos e não são os nossos pressupostos que nos controlam – significa isto que podemos escolher quais os pressupostos que não nos ajudam a atingir os objetivos que pretendemos – em vez disso, por vezes, agarramo-nos aos nossos pressupostos acreditando que eles e nós somos a mesmíssima coisa.
Somos assim moldados pelas expetativas externas a nós e menos pela capacidade de nos elevarmos numa cadeira de julgamento externa a nós mesmos e termos a capacidade de criarmos algo em função das nossas escolhas no presente e não em função de ideias nas quais estamos arreigados e que não nos queremos libertar como se fossem lapas agarradas a nós.
Ao não termos esta capacidade de moldarmos o nosso modelo mental, agimos relativamente a nós como um “produto acabado” – e que consequência terá isso nas formações comportamentais? Tendo disponível um conjunto de saberes extraordinário, de conhecimentos e práticas que nos permitiriam potenciar em larga escala o nosso desempenho, ficamos agarrados a premissas e resistências que impedem esse crescimento. Este exacerbar do “ego” que não se coloca em causa, que se identifica com as suas ideias como se elas fizessem parte do seu ADN, impede-nos de crescer.
Teríamos tudo a ganhar se, tivéssemos uma postura mais humilde e quiséssemos vermo-nos como “produtos em construção” – desejosos de aperfeiçoar as técnicas e os comportamentos que permitiriam não só sermos bons, porque já somos, mas sermos extraordinariamente bons.

Nuno Gonçalves - Partner LearnView

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