Constato nas
centenas de ações formativas que já facilitei que o capital humano português tem
um enorme potencial intelectual e comportamental. Temos tudo para sermos
altamente competitivos no mercado global nacional e internacional. Gostaria no
entanto, enquanto agente de mudança, de partilhar uma das fragilidades que
sinto que existe no mindset do profissional português, genericamente falando.
O boom da formação
em desenvolvimento das competências comportamentais (soft skills) desde os anos
noventa do século XX tem sido extraordinário – inúmeras ações formativas,
workshops, palestras, muito têm contribuído para a literacia emocional e
comportamental dos profissionais portugueses – estamos sem dúvida na vanguarda
do conhecimento, no que diz respeito à introdução das novas práticas,
tendências e modas.
Podemos dizer
que há potencial, mas no que diz respeito propriamente à evolução das
competências comportamentais há algumas limitações nos modelos mentais dos
profissionais portugueses – o que é que significa modelos mentais? A forma como
pensamos e estruturamos o nosso pensamento, os nossos pressupostos que moldam
posteriormente as nossas acções. Diria que alguns modelos mentais são pouco
flexíveis, pouco capazes de se tornarem mais “plásticos”, isto é, terem a
capacidade de receberem inputs diferentes e moldarem o seu modelo mental em
função das circunstâncias e do pragmatismo que se impõe às diversas situações
que se impõem à realidade de cada um.
Esta capacidade
de moldar o nosso modelo mental é decisiva num processo de crescimento e
desenvolvimento pessoal e profissional – é a capacidade de perceber que somos
nós que controlamos os nossos pressupostos e não são os nossos pressupostos que
nos controlam – significa isto que podemos escolher quais os pressupostos que
não nos ajudam a atingir os objetivos que pretendemos – em vez disso, por
vezes, agarramo-nos aos nossos pressupostos acreditando que eles e nós somos a
mesmíssima coisa.
Somos assim
moldados pelas expetativas externas a nós e menos pela capacidade de nos
elevarmos numa cadeira de julgamento externa a nós mesmos e termos a capacidade
de criarmos algo em função das nossas escolhas no presente e não em função de
ideias nas quais estamos arreigados e que não nos queremos libertar como se
fossem lapas agarradas a nós.
Ao não termos
esta capacidade de moldarmos o nosso modelo mental, agimos relativamente a nós
como um “produto acabado” – e que consequência terá isso nas formações
comportamentais? Tendo disponível um conjunto de saberes extraordinário, de
conhecimentos e práticas que nos permitiriam potenciar em larga escala o nosso
desempenho, ficamos agarrados a premissas e resistências que impedem esse
crescimento. Este exacerbar do “ego” que não se coloca em causa, que se
identifica com as suas ideias como se elas fizessem parte do seu ADN,
impede-nos de crescer.
Teríamos tudo a ganhar se, tivéssemos uma postura mais
humilde e quiséssemos vermo-nos como “produtos em construção” – desejosos de
aperfeiçoar as técnicas e os comportamentos que permitiriam não só sermos bons,
porque já somos, mas sermos extraordinariamente bons.Nuno Gonçalves - Partner LearnView
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