O meu relativo sucesso na
minha vida profissional originou que tivesse que me tornar... apanhador de
cocós! Peço desculpa pela nudez da expressão mas qualquer eufemismo retiraria a
realidade que essa tarefa encerra.
Com muito trabalho, muito
entusiasmo, muitas mudanças de mentalidade e muito investimento na minha
profissão, consegui atingir resultados muito interessantes que me
possibilitaram escolher o tipo de vida que mais aprecio e creio ser a melhor
para a minha família: viver no campo, rodeado de natureza e animais, perto da
cidade. No meu caso, são três cães que têm tanto de maravilhoso como de loucos.
É evidente que isso tem custos elevados que só uma actividade profissional bem-sucedida
(pelo menos para mim), pode pagar.
Embora os meus cães
tenham um enorme terreno para desfrutar, sempre os tentei ensinar a fazer as
suas necessidades no canil, que é grande e tem condições para isso. O que
implica que alguém, semanalmente, para que nenhum espaço se torne desagradável,
tenha que apanhar... os cocós deles! Foi assim que me tornei apanhador de
cocós! Agora que expliquei, para desanuviar o ambiente,
usarei um eufemismo para descrever essa minha tarefa semanal: técnico de asseio
canino.
Estava eu nas minhas
tarefas de técnico de asseio canino quando o calor, o odor, as moscas que
circundavam aquele espaço, e mais um par de coisas, me fizeram sentir o quanto
detestava fazer aquilo. Mas não tinha alternativa, tinha que o fazer. Foi
quando se abateu sobre uma ideia que me começou a preocupar (e que, por outro
lado, me fez valorizar ainda mais o meu trabalho mesmo com todas as
coisas menos boas que ele possa ter); e se fosse aquela, realmente, a minha
profissão? Pensei, eu odeio fazer isto, e se tiver que fazer isto todos os dias
da semana, oito horas por dia? Fiquei petrificado com a ideia. Mas, de
imediato, uma pergunta me assaltou: o que faria eu se isso fosse a minha
realidade? Comecei a procurar respostas e concluí que poderia ter uma de duas
atitudes:
Passar cada hora do meu
dia a lamentar a minha sorte e a desejar em cada minuto que ele chegue ao fim,
alimentando todos os dias a minha frustração, afogando-a, em cada final de dia,
na companhia dos meus outros colegas frustrados, em algumas garrafas de cerveja
ou de vinho. Posso até tentar mudar de empresa algumas vezes, não significando
isso mudar de funções. Eventualmente, até desistir de fazer aquilo, não gosto
do trabalho, desisto, despeço-me, logo se vê o que aparece depois. Muitas vezes
assim se criam grandes oportunidades de vida mas nem sequer isso se aplica a
toda a gente como, nos tempos que correm, infelizmente, com a realidade que
vivemos, vejo esse tipo de decisões como alguém que se atira borda fora de um
navio, mas em pleno alto mar...
Como segunda opção, numa
atitude diferente, pensei que faria o esforço que fosse necessário para me
tornar o melhor técnico de asseio canino da minha região. Com um empenho total
e resultados distintivos, seguramente que o conseguiria e ao consegui-lo
estaria a chamar a atenção de todos, provocando, muito provavelmente, uma série
de convites para liderar a equipa dos técnicos de asseio canino ou condutor do
tractor, ou responsável pela quinta ou mesmo iniciar a minha própria empresa de
técnicos de asseio canino, enfim, algo que seria seguramente o início de uma
progressão ascendente.
Tornou-se claro para mim,
aconteça o que acontecer, que visão temos que ter para sair dos buracos que
vamos (creio que é inevitável) encontrando ao longo da vida. Seja como for,
essa é a moral da história, a melhor maneira de progredir num trabalho de que
gostamos mas também – e principalmente – num trabalho do qual não gostamos, é
tentar tornarmo-nos o melhor profissional de todos, ter resultados acima da
média para podermos mudar de trabalho para algo melhor e mais estimulante e não
apenas para fugir daquela função. Não existe crescimento sem dificuldades
e não existe reconhecimento sem resultados. Ultrapassar dificuldades
permite ser reconhecido e evoluir positiva e solidamente numa
carreira profissional.
Aprender a lidar com esta
zona de desconforto é uma garantia de estabilidade emocional futura e de
construção de uma ética de vida e carisma invejáveis. É um bom começo, seja
para o que for.
Paulo Dantas – Partner
Learnview
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