A minha visão
de um Anti-Formador é de alguém que manifestamente tem noção do conhecimento
infinitesimal que detém, do seu humilde reconhecimento que outros existirão
mais capazes, mais experientes e mais inteligentes, da sua suposta inteligência
em compreender que a aprendizagem é uma experiência multifacetada e
interdependente, em que o saber não é detido numa única entidade mas é
resultado de uma aprendizagem colectiva e cooperativa. Nessa medida, o
anti-Formador centra a sua atenção e concentração no formando, ele é a razão da
sua existência. Os discursos não se centram em si, as suas experiências não são
enfatizadas e veiculadas como um imperativo para se credibilizar e se
vangloriar. Poderão perguntar se não poderá soar a falsa humildade esta atitude
“low profile” e derivada de uma
personalidade menos impositiva e assertiva? Vamos imaginar que sim, que derive
de um deficit de extroversão e um superavit de introversão, mas essa não é a
questão, a questão é que o formando enquanto “cliente” da formação quer
sentir-se como a pessoa mais importante do mundo, que o formador estará lá para
o potenciar a ele, para ele ser o actor e a actriz principal daquela formação e
não o contrário, em que o formador utiliza a sua verborreia como forma de se
publicitar.
Poderemos então
concluir que o ADN de um anti-formador é alguém “low profile” e introvertido? Não obstante a sua personalidade
obviamente influenciar aquilo que ele faz, mais do que ser introvertido,
extrovertido, egocêntrico ou humilde, um anti-formador é alguém que compreende
que o seu papel não é valorizar-se a si, mas sim valorizar o formando, que o
seu papel não é valorizar a sua experiência e conhecimentos, mas valorizar a
experiência e conhecimento do formando. Tal como para um actor que está no
palco, o espectador é a razão da sua existência, para um anti-formador o
formando é a razão da sua existência.
Será aquilo que
estamos a afirmar uma tautologia e que obviamente essa deverá ser sempre a raison d´etre de um formador? Deveria,
mas muitas vezes isso não acontece, porque o ego assume a dianteira e mais do
que fazer brilhar os outros, a ideia é fazer com que seja o próprio a brilhar.
Algumas evidências que sustentam a tese do anti-formador
Segundo uma
investigação realizada por Dr. Paul Nutt, da Ohio University, que conduziu duas
décadas de pesquisas sobre as razões porque são tomadas decisões erradas nos
negócios, ele descobriu que mais de um terço das decisões erradas são motivadas
pelo ego. Este estudo foi apresentado num excelente livro que se intitula
Egonomics, o impacto do ego nas decisões de negócio, os autores (David Marcum e
Steaven Smith) apresentam como solução para “controlar” o ego três princípios:
Humildade, curiosidade e a veracidade.
Num dos mais
reconhecidos estudos sobre como pode uma empresa tornar-se excepcional, de Jim
Collins, e editado em livro – De bom a Excelente – foi identificado um estilo
de liderança comum (nas empresas que passaram de um desempenho óptimo para um
desempenho excelente): um líder humilde e determinado a que apelidaram de
liderança de nível 5. Estes líderes canalizavam a sua ambição para a
instituição e não para eles, as necessidades do ego consistiam em criar uma
empresa excelente, agindo com base em princípios e menos com base em carisma. O
foco era a instituição e não eles próprios.
À semelhança do
líder nível 5 o anti-formador centra a sua atenção fora de si, é ambicioso mas
a sua ambição está canalizada para o formando, para a melhoria efectiva da sua
performance, está centrado em ser um verdadeiro agente de mudança e catalisador
de uma transformação pessoal e profissional. O anti-formador não é traído pelo
seu ego, baseia a sua actuação na humildade – o que lhe permite reconhecer os
seus pontos fracos, na veracidade, o que faz com que coloque o dedo na ferida
quando é necessário, e na curiosidade, o que lhe permite estar em constante
auto-aprendizagem, não se deixando fechar em guetos corporativistas e pseudo
especializados. O anti-formador, é verdade, que como se centra na
potencialização do formando e da empresa cliente e não no seu marketing
pessoal, poderá não aparecer na capa das revistas, porque está mais preocupado
em gerar valor para o cliente e menos em desenvolver a sua “personal brand”.
Que tipo de
formador (ou de empresa de formação) costuma contratar para a sua empresa? O
formador, centrado em si próprio, que partilha as suas experiências como forma
de se auto-promover ou um anti-formador que canaliza a sua ambição para fora de
si, centrando-se na melhoria da performance do formando?
Nuno Gonçalves – Partner Learnview
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