Nurture ou Nature? É com este
trocadilho fonético que os Norte-Americanos enquadram a velha questão entre o
inato e o adquirido, entre a herança genética e a educação e qual deles terá
mais importância no desenvolvimento de um ser humano. Obviamente é uma falsa
questão, isto é, afirmar que Messi é uma força da natureza é sustentar que
grande parte do seu talento é inato, nasceu com ele, é um dom que herdou nos
seus 23 pares de cromossomas; Ao afirmar que Ronaldo é produto da sua
capacidade de trabalho, de treino e desenvolvimento de capacidades físicas e
técnicas é sustentar que sem esse esforço ele nunca atingiria o topo ao nível
da performance individual.
É uma falsa questão, porque
colocar a questão numa lógica binária é ser simplista e redutor e baseado no
desconhecimento actual sobre novos conhecimentos sobre o cérebro humano,
nomeadamente através das investigações da neurociência, as quais revelam por
exemplo que a mestria numa determinada actividade é possível porque temos uma
estrutura – chamada bainha de mielina - que envolve os axónios (os “braços” dos
neurónios) e que permite uma condução mais rápida dos impulsos eléctricos.
Quanto maior a “largura de banda” dessa estrutura mais rápido conseguimos
efectuar determinada actividade. Significa isso que todos nascemos com a
possibilidade de aumentar a largura de banda da bainha de mielina (obviamente
menos situações de doenças degenerativas). Como? Através do treino repetido,
com feedback correctivo ano após ano. Isso quer dizer que todos podemos ser
Messis ou Ronaldos? Absolutamente não, porque a complexidade do seu humano é
tal que separar o inato do adquirido e dar mais importância a um dos aspectos é
não compreender a rendilhada matiz comportamental do ser humano – as diversas
influências do meio, da educação, do contexto, das diversas influências educacionais
e obviamente as condições genéticas, aquilo que trazemos de “série”.
Há questões que por muito que
procuremos resposta fáceis e soluções mágicas nunca chegaremos a respostas
muito conclusivas – eu chego no entanto a esta conclusão, o inato e o adquirido
são duas partes da mesma moeda, que não podem nem devem ser separados.
A nossa herança genética
determina muito da nossa personalidade, é um facto indesmentível – sabemos por
exemplo que crianças filhas de pessoas que viveram em contextos de guerra,
herdaram de seus pais genes que as tornam crianças mais susceptíveis e
reactivas ao meio envolvente – herdaram uma amígdala sensível (a amígdala, é
uma zona de cérebro que é activada sempre que sentimos perigo) e por isso
reagem de forma mais rápida e intensa a potenciais perigos que possam existir
na envolvente (reagir mais rapidamente a uma porta a bater, por exemplo). No
entanto, também sabemos que independentemente da herança genética existem
pessoas que com esforço, vontade, motivação conseguem superar e ultrapassar as
suas barreiras físicas e genéticas.
Assim, quando ouvir dizer que
Ronaldo é produto do treino e Messi produto dos genes, pense duas vezes e
afirme com convicção – é uma falsa questão – ambos são importantes e ambos se
interinfluenciam e ambos têm importância – e termine com a famosa questão, o
que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Nuno Gonçalves – Partner
Learnview
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